Se tem uma coisa que eu escuto com muita frequência no consultório é: “eu sei que não é fome… mas eu preciso de um doce”. E, na maioria das vezes, não é fome mesmo. É como se fosse uma necessidade difícil de explicar, que aparece principalmente no fim do dia, quando tudo já aconteceu e você finalmente tem um pequeno espaço para si.
O que eu observo, acompanhando tantas mulheres, é que essa vontade raramente surge isolada. Ela costuma vir depois de um dia cheio, com múltiplas demandas, pouco tempo para se alimentar com calma e quase nenhum momento de pausa real. São dias em que você resolve tudo, dá conta de todos, mas praticamente não se inclui na própria rotina. E quando o corpo percebe isso, ele tenta compensar de alguma forma.
É aí que o doce entra.
Não como falta de controle, mas como uma resposta. Porque, do ponto de vista biológico, ele realmente produz um efeito no seu corpo. Quando você consome algo doce, há uma liberação de dopamina, que está diretamente ligada à sensação de prazer e recompensa. Além disso, há um impacto na serotonina, que ajuda a promover uma sensação de bem-estar e relaxamento. Ou seja, aquele alívio que você sente não é psicológico apenas — ele tem uma base neuroquímica real.
Agora, quando a gente junta isso com a ansiedade, o cenário fica ainda mais claro. Um corpo em estado de alerta constante, com pensamentos acelerados e níveis elevados de estresse, naturalmente busca formas de reduzir essa tensão. E o doce se torna uma das estratégias mais rápidas e acessíveis para isso.
Além disso, existe um outro ponto importante que muitas vezes passa despercebido: a forma como você se alimenta ao longo do dia. Quando as refeições são desorganizadas, quando você passa muitas horas sem comer ou acaba fazendo escolhas que não sustentam sua energia, sua glicemia tende a oscilar mais. E, no final do dia, o seu corpo não vai pedir algo equilibrado — ele vai pedir energia rápida. Vai pedir exatamente aquilo que entrega resposta imediata, tanto física quanto emocional.
Por isso que, na prática, essa vontade por doce não pode ser reduzida a uma questão de “falta de disciplina”. Ela é, muitas vezes, o resultado de um conjunto de fatores: uma rotina sobrecarregada, poucas pausas, alimentação desestruturada e uma necessidade legítima de sentir prazer.
E é justamente por isso que tentar simplesmente “tirar o doce” raramente funciona a longo prazo. Porque o doce não é a origem do problema — ele está ocupando um espaço. Um espaço que, muitas vezes, poderia ser preenchido por uma rotina alimentar mais organizada, por momentos reais de descanso ou até por pequenas fontes de prazer que não envolvam comida.
No consultório, eu não começo proibindo o doce. Eu começo entendendo o dia. Entendendo como essa mulher está vivendo, se alimentando, se organizando e, principalmente, onde ela está — ou não está — dentro da própria rotina. Porque, quando tudo gira em torno de obrigação, o doce acaba se tornando um dos poucos momentos de alívio.
E a gente precisa olhar para isso com mais cuidado. Não para retirar esse recurso de forma brusca, mas para, aos poucos, construir uma rotina que sustente melhor esse corpo — física e emocionalmente.
Porque, no fim, não se trata apenas de diminuir a vontade de doce. Se trata de não precisar dele todos os dias para dar conta da própria vida.


